8 de outubro – Dia da psicóloga latino-americana: mulheres na luta

Se celebra hoy el Dia del Psicólogo Latinoamericano, denominación que no hace justicia al importante papel cumplido por las mujeres en el desarrollo de nuestra disciplina y profesión en la región. Para contribuir a reparar esta injusticia histórica invitamos a una de las psicólogas más destacadas de nuestra comunidad para rendir un homenaje a sus colegas latinoamericanas.

Por Ana María Jacó-Vilela – UERJ, Brasil

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Na Assembleia da União Latino-americana de Psicologia (Ulapsi), que aconteceu no Brasil em setembro de 2006 paralelamente à realização do II Congresso Brasileiro de Psicologia, foi instituído o dia 8 de outubro como Dia do Psicólogo Latino-americano. A data refere-se aoassassinato do líder revolucionário Ernesto Che Guevara e foi escolhida por significar então a luta pelos ideais de liberdade e pela independência do continente em relação aos interesses coloniais dominantes”.

Che foi uma daquelas  pessoas cuja presença transborda de sua própria vida, torna-se um ícone, um símbolo. Como um Aquiles ou um Heitor moderno, ele, ainda jovem, teve uma “bela morte”, uma morte em combate, uma morte que “eleva o guerreiro desaparecido ao estado de glória por toda a duração dos tempos vindouros” (Vernant, 1978, p. 31). Assim, nada mais justo que a homenagem a ele.

Entretanto, mesmo datas honoríficas devem ser problematizadas para não se tornarem um lugar comum, perderem seu sentido. A repetição automática pode ser, inclusive, ofensiva à própria memória que se quer recordar. Assim, pensando no exemplo do Che, nos perguntamos: por que homenagear alguém que não é da área da psicologia? Não existem personagens da Psicologia para receberem esta homenagem? Se o interesse é homenagear um revolucionário, não houve revolucionários na psicologia? E, estando no século XXI, por que homenagear um homem, numa profissão que é majoritariamente feminina?

Estas questões trouxeram à lembrança outras “belas mortes”: psicólogas ou estudantes de psicologia que, muitas vezes imbuídas dos mesmos ideais e, mesmo, refletindo-se na persona de Che, enfrentaram as ditaduras que atingiram diferentes países latinos nas décadas de 1960 e 1970.  Muito jovens, todas elas. Desconhecidas, quase todas.

Lembro aqui, com o auxílio de meu estudante de doutorado Juberto de Souza, das psicólogas brasileiras Iara Iavelberg (1944-1971) e Pauline Reichstul (1947-1973), bem como das estudantes de psicologia Marilene Villas-Boas Pinto (1948-1971) e Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972).  Elas não aceitaram a opressão da ditadura militar que dirigiu o país de 1964 a 1985, se inseriram nos movimentos de resistência e foram assassinadas quando tinham pouco mais de vinte anos.  Em sua vida na clandestinidade, souberam utilizar o que haviam aprendido em sua formação profissional. Iara, por exemplo, defendeu o cuidado psicológico em relação aos militantes na luta armada. Como diz Patarra: “para ela, tão importante quanto as discussões sobre estratégia e tática de luta, era a situação psicológica dos militantes, que desejava fosse a melhor dentro do possível. Sugeriu que a organização criasse condições para que os companheiros tivessem um local onde pudessem descansar das tensões a que eram submetidos” (Patarra, 1992, p. 348-349).  Outra psicóloga, Lucia Maria Salvia Coelho (um pouco mais velha, pois nascida em 1937) realizou   acolhimento psicológico de presas que haviam acabado de ser torturadas; isto, dentro da cela que dividiam, enquanto ela mesma estava presa (Conselho Federal de Psicologia, 2013).

Na Argentina, Beatriz Perosio se dedicou à luta por um atendimento público de qualidade à saúde. Considerava que el derecho a la salud es un derecho inalienable del ser humano y su garante debe ser el Estado, como relata Klappenbach (2020).  Muita ativa na profissão, era presidente da Asociación de Psicólogos de Buenos Aires (APBA) quando foi sequestrada no dia 8 de agosto de 1978. Tinha, na ocasião, 30 anos. Desde então, nunca mais foi vista, faz parte do rol de assassinados e desaparecidos da ditadura argentina (1976-1983). Na sua memória, a Federación de Psicólogos de la República Argentina  (FePRA) comemora o día 8 de agosto como o Día Nacional del Psicólogo Víctima del Terrorismo de Estado en Argentina.

Beatriz Perosio (1948 – ¿?)

Não só em situações de ditadura as psicólogas correram riscos. Viviana Muñoz Marín, psicóloga que atuava en la Agencia para la Reincorporación y Normalización (ARN) –o órgão estatal colombiano encarregado da transição à vida civil de ex-combatentes do conflito armado na Colômbia – foi assassinada na zona rural de San Vicente del Caguán, Caquetá, em 2018. Viviana escolheu um trabalho com o qual pretendia dar sua contribuição na época buscando paz na Colômbia, mas pagou seu preço. Muito alto, como é toda perda de vidas humanas.

Homenagem à psicóloga colombiana Viviana Muñoz Marín por https://www.facebook.com/seloexplicoconplastilina/

Entretanto, estas jovens estudantes e psicólogas que tiveram suas vidas reviradas, intrincadas que estavam com a situação política de seus países, não foram as únicas a enfrentar situações pessoais de mudanças profundas. Outras mulheres, com contribuição marcante na institucionalização da psicologia em diferentes países latinos, também viveram reviravoltas.  A mais conhecida talvez seja Mercedes Rodrigo, que escolhemos como exemplo. Nascida na Espanha em 1891, teve que se exilar em função dos republicanos terem perdido a Guerra Civil Espanhola. Reconstruiu sua vida e carreira na Colômbia, onde é considerada a pioneira na institucionalização da psicologia naquele país. Devido às polêmicas em torno das provas de ingresso à universidade que ela gerenciaba, em um ambiente político e social muito instável, Mercedes decidiu sair novamente ao exílio, desta vez para Porto Rico. Reconstruiu ali sua carreira, contribuindo decisivamente  para a institucionalização da Psicologia naquele país, onde faleceu em 1982.

Outras, todavia, não tiveram sua vida afetada por assassinato, desaparecimento ou exílio, mas também combateram “o bom combate” (2 Timóteo 4:7-8). É o caso de Madre Cristina (Célia Sodré Dória na vida civil,  1916-1997), uma religiosa brasileira que “inventou” cursos de especialização que se transformaram em uma efetiva formação de psicólogos antes da existência deste curso no Brasil. Utilizou os recursos institucionais de que dispunha, bem como a proteção implícita derivada do fato de ser  uma religiosa católica, para  abrigar perseguidos políticos e  contribuir para  causas progressistas, como a criação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e as Diretas-já ao final da  ditadura militar (Baptista, 2001).

Madre Cristina (1916-1997)

Estas são algumas das psicólogas (e estudantes de psicologia)  cujas vidas,  muitas das vezes curtas,  foram vividas  de forma comprometida com a luta contra a opressão realizada por nossas elites,  culturalmente subservientes ao grande capital  e aos dominantes do mundo. Aqui estão apresentadas poucas, principalmente porque não as conhecemos.

Um dos trabalhos pioneiros sobre mulheres na historiografia da psicologia na América Latina resultou no livro de Maria Inés Winkler, Pioneras sin monumentos: mujeres en la Psicología, publicado em 2007. Después de esa obra inaugural, hemos tenido otros trabajos, como de Ana Elisa Ostrovsky (Universidad de Mar del Plata, Argentina), Rosa Falcone, Lucía Rossi e Fedra Freijo (Universidad de Buenos Aires, Argentina) o yo misma en Brasil. Mas isto ainda é pouco. Estes trabalhos contribuem para trazer mulheres à luz retirando-as da invisibilidade a que estão normalmente reduzidas. Entretanto, também é necessário voltar o olhar para outras personagens, aparentemente secundárias, cujas vidas refletem uma doação de si raramente encontrada.

Muitas destas mulheres seguiram a luta de Che. Ele, consciente que o processo revolucionário é contínuo, certamente incentivaria os historiadores da psicologia a investigar e divulgar as envolventes histórias destas e outras mulheres.

Español

En la Asamblea de la Unión Latinoamericana de Psicología (Ulapsi), que tuvo lugar en Brasil en septiembre de 2006, al mismo tiempo que el II Congreso Brasileño de Psicología, se estableció el 8 de octubre como el Día del Psicólogo Latinoamericano. La fecha se refiere al “asesinato del líder revolucionario Ernesto Che Guevara y se eligió porque representa la lucha por los ideales de libertad y la independencia del continente de los intereses coloniales dominantes”.

El Che era una de esas personas cuya presencia se desborda de su propia vida, se convierte en un icono, un símbolo. Como un Aquiles o un Héctor moderno, él, aún joven, tuvo una “hermosa muerte”, una muerte en combate, una muerte que “eleva al guerrero desaparecido al estado de gloria para todos los tiempos venideros” (Vernant, 1978, p. 31). Por lo tanto, nada más justo que un homenaje para él.

Sin embargo, incluso las fechas honoríficas deben ser problematizadas para que no se conviertan en un lugar común, y pierdan su significado. La repetición automática puede incluso ser ofensiva para la misma memoria que uno quiere recordar. Así que, pensando en el ejemplo del Che, nos preguntamos: ¿por qué honrar a alguien que no está en el campo de la psicología? ¿No hay personajes de la psicología para recibir este homenaje? Si el interés es honrar a un revolucionario, ¿no había revolucionarios en la psicología? Y, estando en el siglo XXI, ¿por qué rendir homenaje a un hombre en una profesión que es mayoritariamente femenina?

Estos temas trajeron a la mente otras “bellas muertes”: psicólogas o estudiantes de psicología que, a menudo imbuidas de los mismos ideales e incluso, reflejadas en la persona del Che, se enfrentaron a las dictaduras que golpearon a diferentes países latinoamericanos en las décadas de 1960 y 1970. Muy jóvenes, todas ellas. Desconocidas, casi todas.

Recuerdo aquí, con la ayuda de mi estudiante de doctorado Juberto Souza, a las psicólogas brasileñas Iara Iavelberg (1944-1971) y Pauline Reichstul (1947-1973), así como a las estudiantes de psicología Marilene Villas-Boas Pinto (1948-1971) y Aurora Maria Nascimento Furtado (1946-1972). No aceptaron la opresión de la dictadura militar que gobernó el país de 1964 a 1985, se integraron en los movimientos de resistencia y fueron asesinadas cuando tenían poco más de veinte años. En sus vidas clandestinas sabían cómo utilizar lo que habían aprendido en su formación profesional. Por ejemplo, Iara defendió la atención psicológica de los militantes de la lucha armada. Como dice Patarra: “Para ella, tan importante como las discusiones sobre estrategia y tácticas de lucha, era la situación psicológica de los militantes que quería ser la mejor posible. Sugirió que la organización creara condiciones para que los camaradas pudieran tener un lugar donde pudieran descansar de las tensiones a las que estaban sometidos” (Patarra, 1992, págs. 348 y 349). Otra psicóloga, Lucia Maria Salvia Coelho (un poco mayor, ya que nació en 1937), brindaba atención psicológica a las prisioneras que acababan de ser torturadas, dentro de la celda que compartían, mientras ella misma estaba en la cárcel (Consejo Federal de Psicología, 2013).

En Argentina, Beatriz Perosio se dedicó a la lucha por una atención sanitaria pública de calidad. Consideró que el derecho a la salud es un derecho inalienable del ser humano y su garantía debe ser del Estado como relata Klappenbach (2020). Era muy activa en su profesión y ejercía como presidenta de la Asociación de Psicólogos de Buenos Aires (APBA) cuando fue secuestrada el 8 de agosto de 1978. Tenía 30 años en ese momento. Desde entonces, no se la ha vuelto a ver, forma parte de la lista de personas asesinadas y desaparecidas de la dictadura argentina (1976-1983). En su memoria, la Federación de Psicólogos de la República Argentina (FePRA) celebra el 8 de agosto como el Día Nacional del Psicólogo Víctima del Terrorismo de Estado en la Argentina.

No sólo en situaciones de dictadura las psicólogas corrieron riesgos. Viviana Muñoz Marín era psicóloga en la Agencia para la Reincorporación y Normalización (ARN) – el organismo colombiano estatal encargado de la transición a la vida civil de excombatientes del conflicto armado en Colombia- y fue asesinada en área rural de San Vicente del Caguán, Caquetá, en 2018. Eligió un trabajo con el que pretendía hacer su contribución en este momento de búsqueda de la paz en Colombia, pero ha pagado su precio. Muy alto, como es toda pérdida de una vida humana.

Sin embargo, estas jóvenes estudiantes y psicólogas que vieron sus vidas trastornadas por la situación política de sus países no fueron las únicas que se enfrentaron a situaciones personales de profundo cambio. Otras mujeres, con una marcada contribución a la institucionalización de la psicología en diferentes países latinos, también han experimentado retrocesos. Tal vez la más conocida sea Mercedes Rodrigo, por mencionar solo una. Nacida en España en 1891, tuvo que exiliarse cuando los republicanos perdieron la Guerra Civil Española. Reconstruyó su vida y su carrera en Colombia, donde se la considera pionera en la institucionalización de la psicología en ese país. Pero, debido a las polémicas en torno a las pruebas de ingreso a la universidad, que ella administraba, y en medio de un turbulento ambiente sociopolítico, decidió dejar Colombia, trasladándose a Puerto Rico. Una vez más reconstruyó su carrera, contribuyendo decisivamente a la institucionalización de la psicología en ese país, donde murió en 1982.

Otras, sin embargo, no han visto sus vidas afectadas por el asesinato, la desaparición o el exilio, sino que también han luchado “la buena batalla” (2 Timoteo 4:7-8). Es el caso de la Madre Cristina (Célia Sodré Dória en la vida civil, 1916-1997), una monja brasileña que “inventó” cursos de especialización que se convirtieron en una formación eficaz de psicólogos antes de que existiera este curso en el Brasil. Utilizó los recursos institucionales de que disponía, así como la protección implícita derivada del hecho de ser una monja católica, para dar cobijo a políticos perseguidos y contribuir a causas progresistas, como la creación del Movimiento de los Trabajadores Sin Tierra (MST) y el movimiento “Directas – ya” al final de la dictadura militar (Baptista, 2001).

Estas son algunas de las psicólogas (y estudiantes de psicología) cuyas vidas, a menudo cortas, han sido vividas de una manera comprometida con la lucha contra la opresión por nuestras elites, culturalmente subordinadas al gran capital y al mundo dominante. Si presentamos pocas, es porque con seguridad no conocemos a muchas otras que también merecerían figurar aquí.

Uno de los trabajos pioneros sobre la mujer en la historiografía de la psicología en América Latina fue el libro de María Inés Winkler, Pioneras sin monumentos – mujeres en Psicología, publicado en 2007. Después de esa obra inaugural, hemos tenido otros trabajos, como los de Ana Elisa Ostrovsky (Mar del Plata, Argentina), o los de Rosa Falcone, Lucía Rossi y Fedra Freijo (Universidad de Buenos Aires, Argentina), los míos propios en Brasil. Pero eso es aún muy poco. Estas obras contribuyen a exponer a la luz a las mujeres, sacándolas de la invisibilidad a la que normalmente se ven reducidas. Sin embargo, también es necesario mirar a otros personajes, aparentemente secundarios, cuyas vidas reflejan una entrega de sí mismas rara vez encontrada.

Muchas de estas mujeres han seguido la lucha del Che. Él, consciente de que el proceso revolucionario es continuo, ciertamente animaría a los historiadores de la psicología a investigar y divulgar las historias que involucran a estas y otras mujeres.

Referências

8 de outubro, Dia do Psicólogo Latino-Americano. (2006, Outubro). Conselho Federal de Psicologia: Notícias. Recuperado de https://site.cfp.org.br/8-de-outubro-dia-do-psiclogo-latino-americano/

Baptista, M. T. (2001). Madre Cristina. Rio de Janeiro: Imago.

Conselho Federal de Psicologia (2013). A verdade é revolucionária: testemunhas e memórias de psicólogas e psicólogos sobre a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Brasília, DF: CFP.

Patarra, J. L. (1992). Iara. Reportagem biográfica. 3. ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.

Vernant, J. P. (1978).  A bela morte e o cadáver ultrajado.  Discurso, 9, pp 31-62.

Winkler, M. I. (2007). Pioneras sin monumentos – mujeres en psicología. Santiago de Chile, LOM ed./Usach.

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