As vicissitudes da recepção: Vigotski no Brasil

A apropriação de conceitos originados em outros países implica um novo arranjo deste arcabouço conceitual. Em alguns casos, pode-se falar na emergência de novas teorias, dada a magnitude do distanciamento teórico/metodológico em relação ao contexto de origem. O processo que envolve o acesso e as modificações conceituais sofridos por um sistema teórico num novo contexto socio-cultural será chamado neste post apropriação. Os processos de apropriação tem sido objeto de interesse de historiadores da psicologia e como ilustração das possibilidades desta perspectiva investigativa, destacamos a recepção da Psicologia Histórico-Cultural de Lev Vigotski em âmbito brasileiro.

Psicólogo bielorrusso Lev Semenovich Vigotski (1896-1934).

A teoria Histórico-Cultural parece ter sido sistematicamente apresentada pela primeira vez num breve artigo publicado por Lev Vigotski e Alexander Luria em 1928. O texto Pedologia introduzia diversos conceitos-chave da abordagem Histórico-Cultural, relativos ao desenvolvimento cognitivo infantil. Os achados expostos no texto também seriam apresentados posteriormente sob a forma de dois livros: O Comportamento dos Animais e do Homem e Estudos Sobre a História do Comportamento: o Macaco, o Primitivo e a Criança, em parceria com Alexander Luria.

Neuropsicólogo    russo Alexander Romanovich Luria (1902-1977).

Entretanto, o livro Pensamento e Linguagem é referência bibliográfica majoritária de muitos dos estudos que se valem da teoria de Vigotski em pesquisas brasileiras.

O fato que requer especial atenção é que as edições brasileiras do volume, publicadas a partir de 1987 são baseadas  em uma tradução estadunidense do original em russo. Enquanto a tradução espanhola das Obras Escolhidas de Lev Vigotski contabiliza 337 páginas, a edição brasileira apresenta 194.

Exemplos de estudos que abordam a relevância da tradução de Vigotski na produção científica e aplicação aos campos educacional e psicológico brasileiros podem ser acessados aqui e aqui. No levantamento realizado por Freitas (2004) há a indicação de que a obra Pensamento e Linguagem é citada 38% dos estudos que mencionam a teoria vigotskiana em âmbito brasileiro.

Capa da edição brasileira de Pensamento e Linguagem de Lev Vigotski (194 páginas).

Prestes (2010) destaca a censura imposta aos textos de Vigotski em seu próprio país como aspecto decisivo para o destino experimentado pelas suas ideias. Para a autora a reconstituição das obras traduzidas é urgente no contexto brasileiro. Prestes conclui que os equívocos na tradução de conceitos-chaves condicionam práticas que pouco dizem sobre a proposta original de Vigotski.

Uma consequência interessante do acesso a traduções e dos processos de apropriação decorrentes foi a publicação em 2005 do volume A Construção do Pensamento e da Linguagem, traduzido diretamente do russo para o português. Embora o texto seja pretensamente mais fidedigno, as referências acadêmicas ao pensamento de Vigotski, até 2008, nas reuniões da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd) parecem permanecer sustentadas na edição traduzida do inglês, mesmo com o reduzido número de páginas sugerindo omissões.

Capa da 2ª edição brasileira de A Construção do Pensamento e da Linguagem de Lev Vigotski com suas 520 páginas.

O acesso aos originais enriquece o trabalho de pesquisa e subsidia o processo de apropriação. No caso de Vigotski, a língua materna e questões ideológicas parecem ter influenciado substancialmente a dinâmica das apropriações das suas ideias, não somente no Brasil, mas também, por exemplo, nos Estados Unidos da América, como apontado anteriormente.

Processos similares de apropriação tiveram seu curso no amplo contexto iberoamericano. Personagens e sistemas teóricos não faltarão para investigações que desvelem as particularidades da circulação de perspectivas teóricas em diferentes países.

2 comentários Adicione o seu

  1. Vigotskii is called here ‘BELORUSSIAN psychologist’. It’s not a mistake but It’s more correct to call him “Russian” because of his nationality / citizenship (Russian Empire).
    Vigotskii was born in the city of Gomel – NOW Belorussia. But at the time of Vigotskii it was simply a region of the Russian Empire or (later) Soviet Union.
    To call him “Belorussian” is just same as to call American psychologist born and lived in Washington – Washington psychologist.

  2. ripehp disse:

    Marina, this kind of comment helps us to build a real network of solidarity and active research, which are principles of RIPeHP. Thank you for your gentle comments and correctness of information on the nationality of Vigostki.

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