Thomas Szasz (1920-2012)

por Filipe Degani Carneiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Brasil

Thomas Szasz
Thomas Szasz

Com 92 anos de idade, faleceu no último dia 8 de setembro o psiquiatra húngaro Thomas Szasz (1920-2012). Radicado nos Estados Unidos da América (EUA), Szasz foi um dos grandes teóricos de destaque no movimento de contestação às práticas psiquiátricas coercitivas, a partir da década de 1950. Sua principal obra a este respeito foi O Mito da Doença Mental (1961) em que argumentava contra a própria noção conceitual de “doença mental”. Para ele, os processos classificados como doença mental pelo saber psiquiátrico não seriam qualitativamente diferentes de “problemas na vida”, pelos quais possivelmente todos estariam propensos a passar.

Além de ser uma época extremamente profícua aos movimentos de contestação, a década de 1960 foi um período marcado também pela crítica ao poder da medicina na sociedade – e notadamente, da psiquiatria. Neste contexto, as idéias freudianas começam a perder terreno na psiquiatria norte-americana, com uma nova guinada do biologismo.

O Mito da Doença Mental
O Mito da Doença Mental (1961)

Szasz criticava o ideal cientificista de objetividade absoluta como uma forma secularizada de religião que produzia “dogmas” de forma semelhante. A este respeito, afirmava que determinar que um indivíduo é um doente mental equivale a dizer que alguém está possuído pelo demônio. “Se você fala com Deus, você está rezando; Se Deus fala com você, você é esquizofrênico” (Szasz, T. The Second Sin, Anchor/Doubleday, Garden City, NY. 1973, p. 113). A crítica de Szasz recaía notadamente sobre o tratamento involuntário e sobre a utilização da “doença mental” como um critério jurídico.

Desta forma, Szasz é um nome que se vincula a outros intelectuais do período, como Michel Foucault e Erving Goffman, críticos das práticas de repressão institucional, e tido como um dos líderes da antipsiquiatria (embora rejeitasse tal vinculação e mantivesse críticas ao trabalho de Laing, por exemplo). Mesmo os que criticam sua concepção sobre a natureza da doença mental (tida como demasiadamente radical) ou ainda, sua concepção baseada no liberalismo clássico (considerada direitista) sobre o direito inalienável da pessoa decidir sobre seu corpo e mente, evidenciam sua importância para a denúncia do uso abusivo da psiquiatria e da medicalização.

Tais controvérsias somente evidenciam o destaque que Thomas Szasz possui no movimento de reforma psiquiátrica e sua capacidade de suscitar embates e reflexões. Fica o pesar pela perda desse profícuo pensador.

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