Eric Hobsbawn (9 de junho de 1917 – 1 de outubro de 2012)

por Filipe Milagres Boechat, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil

Eric Hobsbawn
Eric Hobsbawn (1917-2012)

No dia 1º de outubro deste ano faleceu, aos 95 anos de idade, o historiador e marxista Eric Hobsbawn. Nascido de pais judeus num Egito ainda dominado pelo Império Britânico (o que incidirá decisivamente no destino de suas reflexões), Hobsbawn foi autor de uma obra riquíssima e vasta, na qual se destacam a trilogia dedicada à história do Capitalismo (composta por The Age of Revolution: Europe 1789–1848, The Age of Capital: 1848–1875; The Age of Empire: 1875–1914) e uma brilhante contribuição à história do jazz (The Jazz Scene). Por essas e por outras razões, Hobsbawn seguramente figurará como um dos grandes nomes do século XX, não apenas pela extensão de seu legado intelectual, como também por sua intensa participação nos destinos da vida política mundial.

Prova disso foram os eventos que se sucederam ao seu falecimento, que dividiu as

A Era das Revoluções.
Produções de Hobsbawn: A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Impérios.

opiniões no Brasil e serviram para indicar que o cerne de seu próprio pensamento (ou melhor, do pensamento que Hobsbawn acolheu como seu, aquele de Marx e Engels) permanece, a despeito de seus intrépidos detratores, na ordem do dia: a saber, a ideia de que nossas sociedades orgulhosamente democráticas, liberais e igualitárias encontram-se radical e materialmente divididas, e que essa divisão radical e material encontra frequentemente expressão nas opiniões de seus indivíduos e nos seus órgãos e aparelhos formadores.

The Jazz Scene
Produção de Hobsbawn: The Jazz Scene.

Este,  parece-me, é o significado mais instrutivo da recente contenda entre a Revista Veja e a Associação Nacional de História (ANPUH).Pois, se na opinião de alguns setores sociais, aqui representados na figura de uma das revistas de maior circulação nacional, Hobsbawn não passou de “um idiota moral” cujo reconhecido talento historiográfico teria sido maculado por sua imperdoável intransigência ideológica (como nos deu a saber o polêmico obituário redigido por Roland Schlager e publicado sob o título de A imperdoável cegueira ideológica de Eric Hobsbawm); e, se para outros setores sociais, aqui representados pela ANPUH, a obra de Hobsbawn constitui, contrariamente, um patrimônio incomensurável, expressão de um autor dotado de “rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava” (tal como expresso pela nota de repúdio intitulada Resposta à Revista Veja e publicada na página da Associação), difícil não reconhecer que essa disputa extrapola os rasos limites da divergência pontual, comunicando não tanto uma simples diferença de avaliação, mas uma verdadeira divisão no seio mesmo da sociedade brasileira.

Aos que permanecemos, fica o pesar pela perda desse grande pensador e militante. A nós, historiadores, a ocasião para a reflexão sobre nossa responsabilidade enquanto tais.

5 comentários Adicione o seu

  1. Robson Cruz disse:

    Olá Felipe, parabéns pela notícia. Clara e informativa. Estava um pouco por fora dessa querela envolvendo a morte do Hobsbawn.

  2. Filipe Boechat disse:

    Obrigado, Robson. Quanto a esse trabalho claramente ideológico realizado pela Revista Veja, vale conferir a publicação do dia 10/12 de uma matéria sobre Tocqueville, dias depois da publicação desse obituário (04/10), que se abre com a seguinte passagem: “Marx foi o teórico do socialismo, um regime opressivo e sangrento. Tocqueville foi o teórico da democracia, o regime mais benigno já criado pelos homens”. Completo desserviço.

  3. Hugo Klappenbach disse:

    Muy oportuna la nota Felipe. La Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil), seguramente ha valorado el conjunto de la obra de Hobsbawm. No sólo por sus estudios empíricos específicos, entre ellos la trilogía al capitalismo que rescata muy bien Felipe, sino también por sus aportes teóricos a la historiografía. Muchos de los trabajos compilados en el volumen “On history”, teorizan de una manera magnífica sobre el trabajo histórico. En particular, “Ha progresado la historia”, “Partidismo”, “Qué deben los hitoriadores a Karl Marx” y el comentario de libro compilado con el título “Posmodernismo en la selva”, son textos que permiten caracterízar lúcidamente la finalidad de la historia. Debo reconocer que en un texto que he publicado en una revista de Brasil, “Estudos em Psicologia”, me he inspirado explícitamente en Hobsbawm para plantear lo que denomina las “tradiciones historiográficas de la psicología y el psicoanálisis”. Felicito al blog de la Rede por la feliz iniciativa de homenajear a Eric Hobsbawm, un historiador extraordinario.

    1. Filipe Boechat disse:

      Muchas gracias, Hugo, por tu comentario y por las sugerencias. Un grand saludo!

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