Foro Abierto (I): A história crítica da psicologia precisa de uma crítica?

La primer entrada de nuestra nueva sección “Foro Abierto” planteó, de forma sucinta y condensada, uno de los principales problemas teóricos y profesionales identificados por los historiadores de las ciencias del comportamiento y, consiguientemente, por los historiadores de la psicología: el problema de la pertenencia profesional, y luego el de la proveniencia disciplinar, de las narrativas históricas. Allí se planteaba, en sintesis y siguiendo la dicotomía planteada por la obra de autores como Danziger, Young y Woodward, la cuestión sobre la posibilidad de compatibilizar pertenencia e identidad profesional (es decir, historias insiders) con los fines historiográficos de la criticidad y la desnaturalización del canon (es decir, historias outsiders).

Con la finalidad de colaborar con avanzar en este debate y desde una perspectiva regional, en esta ocasión el Dr. Robson Cruz participa ensayando una respuesta al problema planteado.

A história crítica da psicologia precisa de uma crítica?

No último post do Blog da Rede Íbero-Americana de Pesquisadores em História da Psicologia (RIPeHP), Catriel Fierro nos apresenta uma ótima síntese dos debates que permeiam a historiografia da chamada história crítica da psicologia. Para tanto expõe os dilemas centrais de umas das principais discussões que transpassam a história da psicologia como disciplina, nas últimas cinco décadas. Assim, o comentário de Catriel Fierro pode ser lido como uma meta-história da história crítica da psicologia, uma vez que revela muitas de suas premissas, evitando tratar tal fenômeno histórico como autoevidente.

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Robson N. Cruz

Como sabemos, a história crítica da psicologia deriva de um cenário mais amplo de intensos debates acerca, especialmente, das funções políticas e sociais das ciências humanas e sociais, a partir da segunda metade do século XX. Momento no qual se inicia uma forte crítica da manutenção da história dos grandes homens e suas funções ideológicas, sobretudo, na manutenção de preconceitos e no apagamento de sujeitos e grupos excluídos historicamente.

O impacto de tal crítica na historiografia da psicologia foi notável, contudo, nunca significou uma transição evolutiva, no interior da disciplina, da história tradicional à história crítica da psicologia. Na verdade, dificilmente, nem o mais otimista dos psicólogos-historiadores (ver definição em Vaughn-Blunt, Rutherford, Baker & Johnson, 2009) afirmaria que a tão recriminada história dos grandes homens deixou de existir entre nós, visto que seus usos disciplinares ainda se fazem presentes no ensino disciplinar de quase toda disciplina psicológica. Assim, na formação em psicologia, ainda predominam narrativas de progresso, celebração e heroísmo de determinados homens, datas e eventos.

Na historiografia da psicologia, os usos da história comemorativa seriam tão expressivos, que Thomas Kuhn (1989) supôs que a psicologia talvez fosse a área do conhecimento que mais recorresse a esse tipo de narrativa na história da ciência. Se esta hipótese ainda fizer o mínimo de sentido, e provas parecem não faltar para tanto, a história crítica da psicologia tem cumprido o papel de desvelar os inúmeros traumas que aquelas histórias comemorativas apagaram por muito tempo.

Um exemplo marcante de reconstrução crítica história da psicologia e seus inúmeros traumas é a reavaliação histórica do episódio que demarcaria a independência disciplinar e institucional da psicologia científica, a saber, a criação do laboratório de psicologia experimental, na Universidade de Leipzig, na Alemanha, por Wilhelm Wundt, em 1879. Nas novas interpretações desse episódio, são notados importantes indícios de que a independência institucional da psicologia, naquele país, não aconteceu com a instauração do laboratório de Wundt. Primeiro, porque as condições institucionais e políticas da universidade na Alemanha, daquele período, não possibilitariam à psicologia uma fácil independência da filosofia e da medicina. Segundo, porque essa independência nunca foi objetivada por Wundt. Por último, mas não menos surpreendente, é perceber que essas novas reavaliações críticas da história da psicologia, na Alemanha, identificam que esta ciência apenas adquire status de profissão no ápice do regime nazista, como parte integrante do sistema legitimador daquele discurso político (Abib, 1998).

Outros inúmeros exemplos têm nos mostrado o papel da chamada história crítica da psicologia, na denúncia dos traumas e nos apagamentos históricos que permeiam a história da psicologia. Sua estrutura colonialista, ao longo do século XX, e sua função direta na manutenção e fortalecimento de preconceitos étnicos, raciais e de origem de classe são apenas alguns exemplos, que tornam indiscutível o seu valor histórico. Contudo, neste ponto, levantamos um problema que o trabalho de Catriel não trata diretamente, mas do qual pensamos ser possível abstrair e abordar de forma mais específica. Qual seja, o fato de que a história crítica da psicologia, assim como qualquer forma de história, precisa igualmente ser submetida à constante reavaliação crítica. Do contrário, incorremos no erro de tornar seu valor autoevidente. Nesse caso específico, podemos nos iludir, que a expressão “crítica” da história crítica da psicologia crítica lhe imunize de críticas. Ou pior, engamo-nos, supondo que ao nos autodenominarmos como críticos sejamos, indiscutivelmente, sempre críticos.

Exemplo desse problema, na produção da historiografia da psicologia, foi recentemente identificado por Ball (2012) ao avaliar como as críticas a história tradicional da psicologia teriam, provavelmente, implicado um excesso de patrulhamento ideológico de determinados temas, métodos e teorias, em história da psicologia. Para exemplificar os efeitos nocivos desse patrulhamento, Ball (2012) mostra que o excesso de crítica e controle ideológico da produção sobre a história dos grandes homens levou qualquer um que se interessasse por tais personagens a ser enquadrado automaticamente como representante de uma historiografia ingênua e conservadora do status quo. Porém, como decorrência, durante décadas deixou-se de aplicar à  história dos grandes homens as críticas que lhe eram feitas. O que tem acontecido apenas recentemente, por historiadores da ciência e biógrafos profissionais, em sua maioria não praticantes da psicologia, que começaram a reavaliar historicamente a vida dos chamados grandes homens por meio de influências da micro-história e da história cultural (Terral, 2006).

Ainda nessa linha de raciocínio, outro problema tem sido a hierarquização estabelecida, entre o que se convencionou chamar de história social, ou externa, da psicologia e história conceitual, ou interna, da psicologia. Como bem lembra Catriel Fierro, embora essas categorias sejam utilizadas como autoexplicativas, não foram até hoje bem definidas no interior da historiografia da ciência (para uma história do debate internalismo versus externalismo, ver Shapin, 1992).

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Steven Shapin

Mas, ainda assim, estabeleceu-se o senso de que uma história que se denomina social da ciência seria  necessariamente crítica enquanto uma história identificada como interna da ciência, seria necessária tradicional e, por isso, incapaz de crítica. O problema com isso é um tanto óbvio. Desconsidera-se que uma história social não esteja imune de reproduzir os mesmos problemas historiográficos que a história crítica da psicologia denunciou. Ao mesmo tempo, relega-se que histórias conceituais da psicologia propiciam possibilidades de revisões e críticas importantes da historiografia da psicologia.

Por último, a questão aqui, supomos, seria, então, assumir que a denominação história crítica da psicologia deveria ser sempre avaliada como qualquer outro discurso, por meio de seus diferentes usos e consequências nos mais diferentes contextos. O que implicaria, sobretudo, compreender seu papel no interior da história da psicologia como disciplina e grupo. De outro modo, a história crítica da psicologia é apenas um nome vazio de significado, servindo ainda à manutenção de poderes não declarados, como muitos daqueles que ainda permeiam a história da psicologia.

Referências

Abib, J. A. D. (1998). Virada Social na Historiografia da Psicologia e Independência Institucional da Psicologia. Psicologia. Teoria e Pesquisa, 14, 77-84.

Ball, L. C. (2012). Genius without the “Great Man”: New possibilities for the historian of psychology. History of Psychology, 15(1), 72-83.

Kuhn, T.S. (1989). A tensão Essencial. (R. Pacheco trad.). Lisboa: Edições 70. Biblioteca de filosofia contemporânea. (Trabalho original publicado em 1977).

Shapin, S. (1992). Discipline and bounding: the history and sociology of Science as see through the externalism-internalism debate. History of Science, XXX, 4(90), 333-369.

Terrall, M. (2006). Biography as Cultural History of Science. Isis, 97, 306-313.

Vaughn-Blount, K., Rutherford, A., Baker, D. & Johnson, D. (2009). History’s mysteries, demystified: Becoming a psychologist-historian. American Journal of Psychology, 122, 117-129.

[Robson Nascimento da Cruz es miembro de la Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais y de la Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, y es becario de pos-doctorado en la Fapesp].

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