Nota de pesar do Clio-Psyché acerca da morte de Rogério Centofanti (1948-2020)

Este blog se permite reproduzir a nota de pesar do Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché acerca do falecimento do psicólogo Rogério Centofanti, vítima da COVID-19. Também optamos por disponibilizar uma de suas entrevistas, realizada no Encontro Clio-Psyché a qual foi divulgada por meio do Boletim da Sociedade Brasileira de História da Psicologia.

A comunidade de historiadores da Psicologia no Brasil sofreu uma imensa perda para a COVID-19.  Faleceu, em São Paulo, Rogério Centofanti, um dos nossos. Um dos mais originais e (como gostava de dizer) outsiders dos nossos. Sobrevivente de um câncer que o afligia desde 2015, Rogério foi mais uma das vítimas da COVID-19.

De origem familiar italiana, cresceu em Santo André e Pedra Bela, onde os pais moraram. Por volta dos 17 anos, foi emancipado e ingressou na Marinha Mercante. Embarcou menino numa viagem com 200 dólares e sonhos na cabeça. Andou pelo mundo até sentir vontade de voltar.

Essa grande viagem foi marcante. Quando retornou, decidiu colocar os estudos em dia e fez vestibular para a Universidade de Mogi das Cruzes, onde se graduou bacharel em Psicologia (1978).

Ainda estudante, se interessou pela psicologia experimental e sua história. Seriam, de fato, os Laboratórios Experimentais de Psicologia sua principal paixão e seria a atitude experimental (no sentido de rigor empírico e profunda obstinação na busca às fontes) uma das principais marcas de seus trabalhos. No início dos anos 1980, foi instigado pela leitura do texto seminal de Annita Marcondes Cabral, “A Psicologia no Brasil” (1950), principalmente  pela menção ao (então) desconhecido psicólogo polonês Waclaw Radecki, criador do primeiro “Instituto de Psicologia” em 1932, antecedido por um laboratório na Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro. Rogério partiu então para o Rio de Janeiro numa verdadeira caça por pistas. Desde o “Tratado de Psicologia” de Radecki, encontrado em um sebo, passando por outras fontes consultadas na Biblioteca Nacional, chegou até Jayme Grabois (um dos mais jovens assistentes de Radecki no Laboratório) e Antonio Gomes Penna (que ouvira muito de Radecki por seu mestre, Nilton Campos, também integrante da equipe).

O testemunho oral de Grabois e Penna foi crucial para a escrita de Radecki e a Psicologia no Brasil (1982), publicado por Centofanti em um dos primeiros números de Psicologia: Ciência & Profissão, periódico do Conselho Federal de Psicologia que se tornaria nos anos seguintes um dos mais sólidos e relevantes em nossa área.  Além do “primeiro ensaio” de 1982, Rogério voltaria a se debruçar sobre Radecki em outros trabalhos, buscando compreender seu sistema teórico do “discriminacionismo afetivo”. Seu trabalho, cuja própria história tem um considerável quê de insólito, é extremamente relevante não apenas por sua originalidade como por sua precocidade, o que lhe permitiu receber a qualificação de um dos “primeiros ensaios” em História da Psicologia no Brasil: aqui há uma direta e clara referência ao livro organizado por Mitsuko Antunes (2004).

Este livro, proposta do Grupo de Trabalho em História da Psicologia da Anpepp e encampado pelo Conselho Federal de Psicologia, em seu projeto Memória da Psicologia, permitiu o primeiro encontro com Rogério – encarregada de  obter as autorizações para republicação dos  textos dos oito autores selecionados, Ana Jacó, coordenadora do Projeto Memória,  depois de intensa busca  por meio de diferentes contatos, num verdadeiro processo “bola de neve”, conseguiu localizá-lo e obter sua autorização. A partir daí, desenvolveram uma amizade, principalmente virtual, que gerou alguns produtos acadêmicos e a participação de Rogério no Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché.  Como dizia Rogério, aquele contato para o livro de Mitsuko Antunes o transformara  em um “crássico” – assim mesmo,  trocando o “l” pelo “r”, uma auto gozação que era típica de seu modo de ser.

Sua trajetória profissional foi  inicialmente dedicada ao ensino de Psicologia em instituições privadas no Estado de São Paulo e à militância política (notadamente, no Partido dos Trabalhadores) e sindical (a qual lhe rendeu retaliações que lhe fecharam as portas da docência, nos anos 1990).

Passou ao largo da academia, em termos de titulação: realizou um mestrado em Filosofia, não concluído, do qual sempre se lembrava das aulas de Filosofia com José Arthur Giannotti. Dedicou-se, a partir de então, a trabalhos diversos de consultoria empresarial. Nos últimos anos, criou um blog, em que mesclava pensamentos sobre o contemporâneo com recordações de sua trajetória

Outra produção historiográfica de Centofanti, conjuntamente com a historiadora – e sua companheira – Maristela Bleggi Tomasini, foi O Livro dos Cem Anos do Laboratório de Psicologia Experimental da Escola Normal Secundária de São Paulo (1914-2014). Produzido com recursos “contemporâneos” da pesquisa histórica, a saber, as hemerotecas digitais, este trabalho tampouco se deixou formatar pelos moldes acadêmicos do presente século. Em edição própria, que privilegia o tratamento das imagens, Rogério e Maristela voltam a caçar pistas sobre outro laboratório e outro pioneiro, Ugo Pizzoli. Generosamente, como era de seu feitio, colocou o livro em seu blog para acesso livre dos interessados.

Tivemos a grande satisfação de contar com ele – e Maristela Tomasini, atualmente realizando pós-doutorado no Laboratório – em diversos momentos. Esta proximidade física levou ao que poderíamos chamar de “encantamento” dos jovens pesquisadores do Clio com aquele personagem lendário, famoso tanto pelo que se comentava a seu respeito como porque era referência obrigatória para compreender um pouco de nossa história da psicologia. As palavras de Wilk Farias Nobre,  que o conheceu quando terminava seu mestrado, sintetizam o que talvez seja o sentimento de toda a equipe:

Rogério primeiro me apareceu um autor indispensável. Não houve um texto sequer que não o citasse. Após conhecê-lo pessoalmente, sua influência rapidamente deixou de ser restrita apenas ao meio acadêmico. Sua evidente paixão pelo campo o qual estava imerso, conselhos práticos e sinceros, deixaram uma marca não apenas no meu percurso como pesquisador, mas como pessoa. Apesar do momento de luto pela sua perda, me sinto confortado em lembrar que tive oportunidade de conhecê-lo, acolher sua influência. De Rogério, guardo a memória de um homem apaixonado, forte e sábio.

Por tudo isto,  ainda que precoce e mesmo extemporâneo, a complicada palavrinha “pioneiro” bem o descreve: a ele, que tanto interesse dedicou aos pioneiros olvidados da ciência psicológica no Brasil. Rogério realizou historiografia da Psicologia, sem o perceber ou reivindicar. Sua pesquisa representa uma transição entre os primeiros trabalhos ensaísticos e autodidatas para uma produção empírica, centrada no trabalho com as fontes, que viria a ser desenvolvida e consolidada posteriormente pelos Grupos de Trabalho da Anpepp (em História da Psicologia e em História Social da Psicologia).

A última oportunidade em que pudemos desfrutar da enérgica e vivaz presença de Rogério foi durante a IV Semana Clio-Psyché, em 2019.

Rogério e Maristela na sala de pesquisas do Clio-Psyché (2019)

Antes, havia estado no XIII Encontro Clio-Psyché, em 2018, quando deu uma entrevista ao Boletim da SBHP (aqui, p.61-65) que se torna um importante documento para compreendermos sua perspectiva. Ali vemos Rogério recusar a denominação historiador da Psicologia, qualificando-se como um “estudioso de elementos que interessam à história da Psicologia”. Justifica tal decisão, dentre outros pontos, pelo motivo básico que o lançou à pesquisa: “satisfazer minha própria curiosidade”

Com terno afeto e muita saudade, ousamos discordar de você, Rogério. Se a história é a construção de narrativa sobre o passado, se a escrita da história é inexoravelmente fruto dos interesses presentes do próprio historiador e se estes interesses se voltam para contar as  trajetórias da Psicologia, não resta outro modo de te chamar senão historiador da Psicologia e é como historiador, como pesquisador, como autor e, sobretudo, como amigo que lembramos de você.

Requiescat in pace!

Saudades eternas da
Equipe Clio-Psyché

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