Entrevista e lançamento do Livro História e Filosofia da Psicologia: Perspectivas Contemporâneas

Professor Saulo de Freitas Araújo da Universidade Federal de Juiz de Fora. Minas Gerais, Brasil.

O Professor Saulo de Freitas Araújo lançou no XIV Simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) o livro História e Filosofia da Psicologia: Perspectivas Contemporâneas.

A obra é composta por trabalhos inéditos e traduções que compreendem diversas perspectivas teóricas e metodológicas abrigadas sobre a temática explicitada no título da compilação. Vale a pena destacar os textos de Roger Smith, Thomas Sturm, Annette Mülberger, Horst Gundlach, do próprio organizador, além de outros trabalhos relevantes para os campos da História e da Filosofia da Psicologia ao redor  do mundo.

O lançamento do livro  compõe a consolidação da linha de pesquisa em Filosofia e História da Psicologia do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPG-PSI) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

A seguir, é reproduzida a entrevista realizada por Maria Fernanda Costa Waeny com o Professor Saulo, a pedido do Blog da RIPeHP.

Seu livro, História e filosofia da psicologia, é produto do NUHFIP, do PPG-PSI da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que você criou. Como tem sido essa experiência e quais os projetos e desafios futuros?

Sim, o livro que estou lançando é o primeiro documento oficial da criação tanto do NUHFIP quanto da nova Linha de Pesquisa no PPG-PSI da UFJF. Apesar do trabalho intenso para manter tudo isso em funcionamento, estou muito feliz com os resultados já alcançados em pouco mais de um ano de existência. Em primeiro lugar, graças ao apoio institucional da UFJF, incluindo o próprio Programa de Pós-Graduação em Psicologia, conseguimos passar de um grupo informal para um Núcleo de Pesquisa institucionalizado, com espaço físico, móveis e equipamentos próprios. Conseguimos também trazer para o Brasil a biblioteca particular do Prof. William Woodward, que é um dos grandes nomes da História da Psicologia nos EUA. Ele mesmo virá ao Brasil em breve para uma cerimônia oficial de inauguração de sua biblioteca junto ao NUHFIP. Além disso, na última viagem que fiz à Alemanha, conseguimos fazer contato com pesquisadores alemães importantes, que demonstraram grande interesse em vir ao Brasil visitar o NUHFIP e também em estabelecer parcerias futuras. Um outro resultado importante foi o convite que recebemos para apresentar o NUHFIP e a nossa Linha de Pesquisa no PPG-PSI em um simpósio internacional dedicado ao treinamento e à formação de pesquisadores em História da Psicologia, que acontecerá agora em julho no Congresso Internacional da Cheiron e da ESHHS, em Montreal. Acho que são resultados bastante significativos para um ano de trabalho. Em relação ao futuro, já estamos trabalhando conjuntamente em um novo projeto de pesquisa, relacionados aos fundamentos filosóficos da psicologia contemporânea. Também estamos planejando a abertura do Doutorado. Além disso, queremos estabelecer parcerias com outros núcleos de pesquisa, no Brasil e no exterior. O principal desafio que vislumbro é manter esse trabalho de equipe pelos próximos anos, tendo em vista as exigências cada vez maiores do sistema de pós-graduação no Brasil e os interesses acadêmicos individuais de cada pesquisador. 

Observa-se o interesse de psicólogos pela filosofia (frequentando grupos de estudos, cursando graduação em filosofia, lendo clássicos da filosofia). Seu livro, ao reunir textos sobre os fundamentos históricos e filosóficos da psicologia, oficializa esse interesse pela filosofia, em nível acadêmico e institucional?

Eu não diria que o livro oficializa o interesse de psicólogos pela filosofia, uma vez que já há publicações oficiais sobre o tema no Brasil, mas ele certamente reforça esse interesse, ao trazer para o público brasileiro trabalhos recentes sobre a relação entre a história e a filosofia da psicologia, incluindo artigos importantes de pesquisadores internacionais renomados. De fato, é a primeira vez que uma obra desse gênero é publicada no Brasil. Por outro lado, o livro reflete a abertura de um novo espaço acadêmico e institucional no país, oferecendo às pessoas interessadas uma possibilidade de formação específica na área da filosofia da psicologia. Nesse sentido, pode-se falar em uma oficialização, pois é a primeira vez que um espaço deste tipo é criado dentro do sistema de pós-graduação em psicologia no Brasil.

Com a constituição da história da psicologia como área de pesquisa, é possível observar o crescente interesse destes pesquisadores pela filosofia. É neste panorama que se insere a publicação de seu o livro, História e filosofia da psicologia?

Existem muitas maneiras de fazer pesquisa em história da psicologia. No Brasil, existem ótimos grupos de pesquisa, que vêm fazendo um trabalho sistemático nessa área há muito tempo. Por exemplo, na USP-RP, na UERJ, na PUC-SP e na UFMG, há excelentes projetos de pesquisa relacionados à história da psicologia no Brasil e na América Latina, cujos resultados têm sido apresentados em reuniões e congressos da área.  Em que pese, porém, a multiplicidade e a qualidade dos trabalhos realizados nesses grupos, penso que há uma lacuna a ser explorada nessa área de pesquisa, que se refere exatamente à relação entre psicologia e filosofia ao longo do tempo. Essa é exatamente a temática central que o NUHFIP e o PPG-PSI exploram e pretendem explorar nos próximos anos. Nesse sentido, o livro reflete exatamente essa temática central. 

Como você analisa essa relação entre psicologia e filosofia e qual sua importância para o desenvolvimento da psicologia?

Como eu disse anteriormente, penso que essa relação é fundamental para compreendermos a situação da psicologia contemporânea. Hoje é possível se formar em psicologia sem ter nenhum contato com a filosofia. No entanto, até o início do século XX, isso era impossível, pois não havia separação institucional entre ambas as disciplinas. Em outras palavras, quem quisesse estudar psicologia naquela época, tinha que estudar filosofia também. Isso significa que o modelo de psicologia que temos hoje é bastante recente, o que nos obriga a pensar essa relação com a filosofia em uma perspectiva histórica. Ao longo do seu desenvolvimento, a psicologia foi se distanciando tanto intelectualmente quanto institucionalmente da filosofia, o que acabou gerando a separação e o conseqüente isolamento mútuo de ambas. Deixando de lado a questão que os filósofos têm que enfrentar, mas que não cabe aqui discutir, o problema que se coloca para os psicólogos contemporâneos é o seguinte: em que medida pode a psicologia caminhar sem uma reflexão sobre os fundamentos filosóficos que a sustentam? Em outras palavras, que tipo de psicologia estamos produzindo, quando renunciamos explicitamente a uma reflexão sistemática sobre os pressupostos centrais de nossas pesquisas científicas? Quando essa reflexão está ausente da formação do psicólogo, as conseqüências podem ser deletérias não só para o tipo de conhecimento gerado em nome da psicologia, mas também para a sua inserção na sociedade sob a forma de serviços prestados à população. Por outro lado, quando o psicólogo toma consciência dos seus compromissos teóricos e das conseqüências que eles podem gerar, isso vai acarretar uma atitude bastante diferente diante de suas próprias pesquisas e também de sua prática profissional. Esse é, a meu ver, o ponto mais importante da relação entre psicologia e filosofia para o psicólogo contemporâneo.

2 comentários Adicione o seu

  1. André Stroppa disse:

    Parabéns Saulo, pela bela iniciativa.

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